O que você acha? “Nossas universidades precisam falar inglês” – artigo de Leandro Tessler


Recebi o interessante artigo por e-mail, e achei que poderia ser um tema interessante para discutir aqui no blog: a ideia de cursos de graduação e pós em universidades brasileiras, ministrados em inglês. Você consegue se imaginar nessas aulas? Como deveriam ser para funcionar? O que você acha que ganharia e o que perderia com isso? Vale a pena? Por que?

Um diálogo nos comentários do blog será super bem-vindo!

Boa leitura e boa reflexão!

Selma

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Leandro Tessler é professor do Instituto de Física Gleb Wataghin da Unicamp e assessor para internacionalização da universidade. Artigo publicado na Folha de São Paulo de domingo (25).

A Argentina recebe mais alunos dos EUA do que nós… Temos a tradição de resistir a cursos em inglês na universidade, como se fosse uma questão de soberania Nosso ensino superior está se internacionalizando. É uma via virtuosa: as instituições se internacionalizam porque se qualificam e se qualificam porque se internacionalizam.

Há um pequeno fluxo de estudantes de graduação europeus que passam alguns anos da sua formação em nossas melhores universidades em programas de duplo diploma.

Na pós-graduação, o Brasil é um destino importante para estudantes de países vizinhos. O Brasil é extremamente atraente para eles: tem um sistema universitário desenvolvido; oferece formação de primeira linha; ao contrário do que ocorre na maioria dos países, não cobra taxas ou mensalidades de nenhum estudante, brasileiro ou estrangeiro; há abundância de bolsas e oportunidades de financiamento. Falamos uma língua facilmente acessível para quem fala espanhol.

Mas os resultados atuais estão muito aquém do que poderiam ser. O Brasil ainda tem um número pequeno de universidades entre as 500 melhores do mundo. O número de alunos estrangeiros no Brasil é bastante reduzido. Há mais estudantes norte-americanos na Argentina do que no Brasil. Isso se deve à preferência dos estudantes por um país que fala espanhol, mas também pela disponibilidade de programas de graduação em inglês.

As universidades brasileiras deveriam considerar a possibilidade de oferecer cursos superiores em inglês – de preferência até completos – juntamente com o português.

Na idade média, quando as universidades foram criadas, as pessoas cultas se comunicavam em latim. Graças ao latim, um estudioso de Oxford ou de Bolonha no século 12 podia trocar ideias com alguém de Salamanca ou da Sorbonne.

Com o passar do tempo, o latim caiu em desuso e o inglês tomou conta do universo universitário. Atualmente não existe nenhuma conferência internacional importante que não adote o inglês como língua franca. É fundamental para o avanço do conhecimento que pesquisadores possam se comunicar e se fazer entender diretamente.

Nós, brasileiros, historicamente temos resistido a introduzir o inglês como língua de instrução nas nossas universidades. Há quem afirme que ensinar em inglês seria renunciar à soberania nacional, como se a nossa nacionalidade estivesse estritamente associada a falar português. Não se tem notícia de que algum país não anglófono no qual há ensino superior em inglês (como Portugal, berço da língua portuguesa) tenha renunciado a sua nacionalidade por isso.

Outra posição recorrente é a do esforço: alguém realmente interessado em estudar no Brasil deveria aprender a língua. Em tese, isso está correto. Na prática, os estudantes preferem dirigir-se a países onde as aulas são dadas em inglês. Eles sentem-se muito mais seguros com a garantia de que a língua não será um problema para o aproveitamento de sua estada.

Na verdade, se ensinássemos regularmente em inglês estaríamos fazendo muito mais pela divulgação e expansão da cultura brasileira e da língua portuguesa.

Uma última objeção é que isso elitizaria ainda mais as já elitizadas universidades brasileiras. Isso talvez fosse correto se deixássemos de ensinar em português. No entanto, a coexistência de cursos em inglês e português ofereceria oportunidades para estudantes brasileiros conviverem com estrangeiros e aperfeiçoarem sua proficiência em inglês.

Foi divulgado recentemente que no programa Ciência sem Fronteiras foram concedidas duas vezes mais bolsas para Portugal e Espanha do que para o Reino Unido, os Estados Unidos e a Austrália, onde se concentram as melhores universidades do mundo. Isso só pode ser explicado pela deficiência na formação dos estudantes em inglês. É urgente mudar isso.

Os primeiros passos para uma internacionalização efetiva do nosso ensino superior já foram dados. Falta sermos mais atraentes para estudantes de todo o mundo, como somos atualmente para os estudantes latino-americanos. Falta termos mais resultados de pesquisas publicados em inglês. Publicações acadêmicas em inglês atingem a um público muito maior e têm mais impacto sobre o desenvolvimento científico e cultural da humanidade.

O Brasil tem tudo para se tornar um centro importante mundial de ensino superior. Precisamos saber aproveitar a oportunidade histórica.

* A equipe do Jornal da Ciência esclarece que o conteúdo e opiniões expressas nos artigos assinados são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do jornal.

5 comentários

  1. Olá Patrícia,
    Achei seu comentário perfeito! De fato, temos tentado corrigir no Ensino Superior o que não foi feito no Ensino Básico. Se todas as crianças tivessem acesso a um ensino de língua de qualidade, estaríamos bem mais à frente… Dá até medo de pensar como o Brasil, com uma economia crescente e grandes eventos esportivos, receberá os visitantes internacionais.
    Enquanto não houver investimento na formação e na valorização dos professores e na melhoria do ensino básico, continuaremos, como você disse, aprofundando as desigualdades…
    Obrigada pela visita no blog!
    Selma

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  2. ´Tal como o inglês é ensinado no ensino básico e secundário, deveria existir a disciplina de inglês em todos os cursos universitários.Porquê? Estamos na época da globalização em que a língua internacional é o inglês,isto no campo das ciências, das artes, da música, da tecnologia e sobretudo dos negócios….. hoje em dia, quem não souber falar minimamente inglês ou escrever um texto no word é considerado um analfabeto… é que o futro é hoje… e não amanhã……. se realmente quero ter relações( sejam elas quais forem, comerciais ou até a nível académico) com um país cujo a língua eu não domino, fala-se inglês.Eu sou professora de inglês e vejo estudantes universitários numa aflição porque determinado livro, assunto, artigo está em inglês e não percebem nada…. o intercâmbio é um das melhores formas de trocar informações . Se eu não falar inglês , por exemplo, como um americano vai manter uma troca de informaçóes comigo?Em espanhol?

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  3. Não podemos estar alheios ao que está ocorrendo no mundo. O inglês como lingua estrangeira é essencial no meio acadêmico e portal para pesquisas em quaisquer áreas. O que me aflige como professora de inglês, no entanto, é a qualidade das aulas dadas em inglês mesmo nas universidades. Quem daria essas aulas? O que aconteceria com os professores das universidades públicas? Um outro ponto importante a ser levado em consideração é o nível sofrível das línguas portuguesa e inglesa dadas nas escolas públicas. Por que não repensar o nível das línguas dadas para nossos alunos desde a mais tenra idade? Por que não começar da educação de base também? Se não for assim, temo que a educação de qualidade será sempre voltada para uma elite não somente brasileira, mas também estrangeira.

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  4. É claro que a realização de aulas em inglês nas Universidades depende da qualidade do ensino das línguas na educação básica. De qualquer forma devemos pensar seriamente sobre esta possibilidade que é uma tendência mundial, e junto à língua inglesa devemos pensar em cursos em língua espanhola também.

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