Dúvida de mãe: Educação Bilíngue e o processo de afabetização


Recebi uma pergunta interessante de uma mãe que lê o blog, e pedi sua autorização para respondê-la aqui. Quem sabe ajuda outras mães em situação semelhante? Vejam só:
“Prezada Selma,
Me chamo A.D., sou mãe de uma menina de 05 anos e estou cheia de dúvidas sobre a eduação bilingue. Pesquisando sobre o assunto, encontrei o seu blog onde pude ler sobre os mitos deste tipo de educação e me senti estimulada a te escrever. Gostaria muito da sua ajuda para tirar outras dúvidas, seria possível?
Minha filha está no grupo 5 e no próximo ano ela estará no 1o. ano fundamental (antiga alfabetização). A escola em que ela está virou escola internacional e ela tem aulas de inglês todos os dias. Até aí tenho adorado e ela também. Porém, na semana passada tivemos a informação que a escola passará a ser bilingue a partir do do ano que vem. Só que ano que vem será o último ano dela na escola, depois ela irá para um colégio maior e que não é bilingue. Minha dúvida está exatamente aí: vale a pena estimular ou deixar uma criança ser alfabetizada num processo bilingue (por apenas um ano) e depois tirá-la? Ou é melhor antecipar a ida dela para o outro colégio? Não queria tirá-la agora para que o processo de alfabetização não ficasse comprometido com uma nova adaptação, mas agora com a novidade de ser bilingue estou na dúvida se devo manter na atual escola.
Vou continuar pesquisando sobre o assunto, mas gostaria de saber se você poderia me dar sua opinião sobre estas questões. Há motivo para estas minhas preocupações?
Atenciosamente,
A.D.”
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Obrigada, A.D., pela pergunta, que achei bem interessante. Vou tentar ser bem clara e nada técnica então.
1) Sobre sua iniciativa de perguntar e se informar: 
É ótimo que você tenha tido o tempo e a iniciativa de ler sobre isso e procurar orientação. Nem sempre nós fazemos isso, e muitos pais acabam se deixando levar pelo senso-comum ou por conselhos (bem intencionados) de pessoas que não têm nem formação nem experiência para julgar. Buscar informação é sempre o melhor, parabéns.
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2) Sobre a mudança da atual escola de  regular com ensino de línguas para escola bilíngue
Pode haver muitas razões para essa mudança, tais como os resultados positivos do aprendizado de línguas pelas crianças, pedidos dos pais ou pressão do mercado. Contudo, se a mudança for conduzida com competência e seriedade, e a transição for feita com cuidado, os benefícios aparecerão. Se você gosta da escola e confia na equipe pedagógica, não precisa se preocupar muito com isso. Imagino que eles tenham feito reuniões para informar os pais e explicar as mudanças. Se ainda tiver dúvidas específicas, procure a coordenação para esclarecê-las. Uma boa escola mantém o diálogo com os pais e as portas abertas, porque os objetivos são semelhantes: a formação das crianças.
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3) Sobre o processo de alfabetização:
 Antigamente, quando nós íamos pra escola, começávamos a aprender as primeiras letras aos 6 anos, no prézinho, ou mesmo aos 7 anos, na primeira série. Mas o mundo era outro! As crianças hoje sabem muito mais que as primeiras letras nesta idade: elas usam o computador, mexem na televisão, têm livros em casa e na escola, e já pensam sobre a escrita muito antes de começar o ensino formal do sistema de escrita. Imagino que a escola de sua filha não use cartilhas nem ensine o “bêabá” (infelizmente tem escolas que ainda fazem isso, acredita?). Então, aos 5 anos, suponho que ela já reconheça seu próprio nome e o de vários amigos, escreva algumas letras e saiba seus nomes e identifique palavras que vê frequentemente na rua, em logotipos, etc. Então, o processo de alfabetização dela já começou, e faz tempo! O que provavelmente vai ocorrer agora é que ela terá mais oportunidades de refletir sobre o sistema de escrita – a relação entre as letras e seus sons, a formação das palavras – e conseguirá decifrar tudo o que ler, e não apenas as palavras mais familiares.
A escola dela tem muitos livros na classe e na biblioteca? Ela têm acesso frequente a eles? Lêem histórias todos os dias? Ela traz livros emprestados para casa? Ela se mostra curiosa com tudo o que vê na rua e tenta descobrir o que está escrito? Brinca de escrever cartinhas e bilhetes para a família? Pergunta a você como se escrevem algumas palavras? Se a resposta para todas estas perguntas for sim, fique tranquila: ela está se desenvolvendo muito bem e já já estará lendo tudo e escrevendo também.
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4) Sobre ler e escrever em uma segunda língua
As crianças, curiosas que são, tentam escrever tudo o que pensam, e nem sempre se preocupam em que língua está escrito. Palavras em inglês já estão tão incorporadas ao nosso dia-a-dia que elas mal percebem que é outra língua, e ao escrever, por exemplo, video game, podem produzir uma variedade de escritas como “vidio gueime“, “vireo gaeme“, entre muitas outras possibilidades de representar, com as letras, os sons que ouvem (o que a gente chama de relação fonema-grafema). Quando elas escreverem assim, o que se deve fazer?
Sabe o que sempre digo? Beijar, abraçar e achar lindo! Perceba quanta atividade mental é necessária a uma criança de 5, 6 ou 7 anos para escrever assim! Aquilo que os adultos vêem como um erro nada mais é do que a representação do que a criança sabe sobre o sistema de escrita. No primeiro exemplo, “vidio gueime“, ela está representando com a fonética do português (que conhece melhor) uma palavra em inglês. No segundo exemplo, “virio gaeme” ela tenta usar os fonemas do inglês em certa medida, mostrando até a pronúncia do d como r.
Vê como é complexo?
Muitos pais se preocupam que esses equívocos se fixem e por isso temem os erros. Mas essa preocupação não tem fundamento: todos nós erramos enquanto estamos aprendendo. O erro faz parte do processo, e nos ajuda a aprender. Lembra quando ela aprendeu a andar, como caía, se levantava e aprendia a se equilibrar? E quando aprendeu a falar, como se atrapalhava e produzia aquelas palavrinhas mais fofas que toda avó gosta de imitar? Por que seria diferente agora?
Portanto, deixe-a experimentar a escrita nas línguas que quiser, apóie, valorize e deixe-a seguir seu curso. Ela aprenderá, aos poucos, as complexas convenções que regem o sistema de escrita em português.
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5) Sobre a mudança de escola agora ou mais adiante
Essa é a questão mais difícil de responder sem conhecer bem ambas escolas (a atual e a futura). Você está tranquila na escola atual e confia no trabalho pedagógico que desenvolve? Sua filha está bem, feliz, integrada e curiosa com as coisas que está aprendendo? Se as respostas a estas perguntas forem afirmativas, talvez valha a pena esperar mais um ano, para que ela sistematize melhor este processo de aprendizagem que está vivendo agora. A mudança de escola sempre mexe com a criança, e ela estará focada em se adaptar, conhecer os novos amigos, o espaço, as normas de convivência, os professores… A tendência é que o foco nestes aspectos desvie um pouco seu envolvimento com o processo que está vivendo agora. E talvez, ao ter mais um ano de exposição à segunda língua, ela ganhe mais conhecimento sobre ambas – português e inglês.
Geralmente é melhor completar um ciclo na instituição e, ao sair, ter essa transição com naturalidade. Muitas vezes os pais acham que a mudança implica em sofrimento, e para poupar as crianças, tentam mudá-las de escola mais cedo, achando que seria menos traumático. Mas embora nem toda mudança seja sofrida – às vezes é até estimulante – sabemos que as crianças maiores tendem a ter mais estabilidade emocional para lidar com estas mudanças.
Esta decisão depende de você, que tem todas as informações necessárias para avaliar a escola atual e a futura, e é quem melhor conhece sua filha para avaliar como ela está – emocionalmente, socialmente e cognitivamente.
Espero ter ajudado, mas se tiver qualquer outra questão, não deixe de postar nos comentários e podemos continuar nosso diálogo.
Um abraço,
Selma
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6 comentários

  1. Querida Selma,

    antes de mais nada… sou sua fã.
    Tenho uma escola americana aqui em florianópolis e muitos me acham doida por falar em bilietramento.
    Infelizmente não consegui ler o artigo que vc sugere. vc poderia mandar para o meu e-mail ou colocar no seu site na íntegra.
    Obrigada, antecipadamente, pela resposta e obrigada pelo blogh. leio sempre.
    Atenciosamente,
    Melissa Farias

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  2. Hi, Selma
    Sou professora de inglês na rede municipal de SP e este ano nossa rede implantou o ensino de inglês nas séries iniciais do ensino fundamental I, ou seja, 1 ao 5 ano. Como somos formados em Letras o “bancaram” uma formação de 40 horas visando nos deixar mais aptos a “lidar” com o publico infantil. Minha duvida é a seguinte. Fomos aconselhados a não escrever NADA em inglês ou trabalhar com alguma coisa escrita nesta língua para não atrapalhar as hipóteses de escrita da criança.
    1) O que você pensa a respeito.
    2) Se isto for verdade por que sempre vemos 2 ou 4 palavras em inglês nas atividades destinadas as crianças do 1 e 2 ano.
    3) Você tem alguma indicação de autores brasileiros que falam sobre isto.

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  3. Obrigada, Ana Cláudia!
    Fico muito feliz e orgulhosa por você ter gostado! O feedback de outra especialista é super bem vindo!
    Um abraço grande!
    Selma

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  4. Selma,
    Como vai? Sua resposta foi muito correta e objetiva. Que bom que a mãe A.D. teve o cuidado de procurar opiniões de especialistas. Parabéns, A.D.!.

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  5. Pois é, Silvia, durante algum tempo imperou em alguns países a ideia de que as crianças deveriam aprender a ler e a escrever primeiro em sua língua materna para só depois serem expostas à escrita em outra língua. As pesquisas que comprovavam essa necessidade eram feitas com crianças de grupos minoritários, recém-chegadas a outros países, onde eram expostas à escrita em uma língua que para elas era nova. Um exemplo desse contexto são as crianças de famílias hispano-falantes nos EUA. Para estas crianças era quase impossível aprender a ler e a escrever – entre outros conteúdos escolares – em uma língua que não dominavam.

    Há, porém, outros contextos de bilinguismo em que a criança é exposta a duas línguas desde cedo, de modo que quando começa a aprender o sistema de escrita, já domina bem a ambas. Nestes contextos faz mais sentido pensar em um processo de biletramento (biliteracy). Veja, por exemplo, este artigo: http://www.tc.columbia.edu/faculty/kleifgen/tech_n_lit/pluriliteraciesfinal.pdf

    Obrigada pelo comentário! Sempre é bom dialogar e trocar opiniões e conhecimentos. Abraço!

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  6. Há 20 anos atrás tive que responder uma pergunta sobre alfabetização em ambiente bilíngue para conseguir meu emprego como fono numa escola bilíngue rsrss
    Gostaria apenas de colocar que a alfabetização deve ser feita primeiro em um idioma e depois no segundo….

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