O que merece ser feito merece ser bem feito: pela qualidade na educação (bilíngue ou não)


Às vezes recebo e-mails de pais com questões sobre educação bilíngue, que respondo sempre que posso. E uma das questões mais interessantes até hoje está reproduzida abaixo (com autorização da autora e respeito a sua privacidade). Espero que possa auxiliar outros pais e, quem sabe, alimentar a reflexão por parte de escolas (bilíngues ou não) e educadores.

Minha filha tem 4 anos e está estudando em uma escola que começou este ano com o ensino bilíngue. A princípio achamos interessante, porém ao longo do tempo percebemos que a escola trabalha 1/2 do período o inglês e 1/2 o português. O conteúdo que antes era dado normalmente pela professora no horário integral, agora é dado em somente 1/2 do tempo total da aula. O tempo para as outras atividades ficou reduzido pela metade e a professora tem que correr para que seja possível aplicar todo o conteúdo nesta parte do tempo. O resultado é que eles parecem irritados, cansados, faltam muitas experiências e vivências externas e o parque não é mais tão frequente por conta do tempo.

Morro de dó porque ela tem mais apostilas com 4 anos do que eu tinha no meu curso pré-vestibular e pouco brinca com os colegas, pouco eles se divertem. Assim, pouco experimentam e pouco se socializam e muito escrevem. Será que a postura da escola de colocar 1/2 do dia para cada coisa não está errada? o tempo não deveria ser menor? Estou pensando colocar minha filha em uma escola que não seja bilíngue, para que ela tenha mais tempo disponível para aprender a se relacionar, para brincar, experimentar antes de aprender outra língua….

Se você puder responder para me dar alguma luz, fico muito grata, pois não sei se a escola é que não está agindo de forma equilibrada ou se nós é que estamos assustados…

Quem de nós nunca se sentiu inseguro quanto à escolha de uma escola, a metodologia de ensino, o cotidiano das crianças ou as queixas dos filhos sobre situações corriqueiras? É natural (e até instintivo) querer proteger nossa prole de qualquer problema ou sofrimento, e os pais mais equilibrados conseguem administrar sua ansiedade e identificar o que faz parte da vida de qualquer criança e o que está fora do esperado para o desenvolvimento das crianças. Quando a insegurança aumenta, é preciso haver diálogo entre a escola e a família e confiança na capacidade profissional dos educadores. Mas e quando o diálogo é unilateral e a confiança é abalada?

Vou comentar trechos do email que apontam questões relevantes para nós. Vamos lá:

1) “A escola começou este ano o ensino bilíngue”

O número de escolas bilíngues tem aumentado a cada ano, tanto com a abertura de novas escolas quanto com a introdução de programas de educação bilíngue. Mas é preciso garantir que a qualidade do ensino proporcionado nestas escolas seja de fato bem pensada e bem conduzida. Além de terem proficiência nas línguas da escola, os professores devem ter boa formação inicial (em Pedagogia para trabalhar na Educação Infantil e no Ensino Fundamental) e continuada. Não há qualidade de ensino sem um projeto pedagógico sério por parte da escola, que envolve toda a equipe, e investimento constante em formação. Confira um checklist para avaliar a qualidade do corpo docente:

  • a) Os professores têm formação em Pedagogia?
  • b) Os professores têm experiência em educação?
  • c) Os professores têm proficiência nas línguas? (Certificados como o CPE são desejáveis)
  • d) Há professores com pós-graduação?
  • e) A coordenação pedagógica tem formação em educação em geral e em educação bilíngue em particular?
  • f) Os professores participam de eventos e cursos na área? A escola apoia esta participação? (Boas escolas incentivam seus professores a participarem de cursos e eventos, inclusive liberando-os em horário de trabalho e financiando parte do custo)
  • g) Há reuniões pedagógicas frequentes com toda equipe? (As reuniões devem ser semanais ou, pelo menos, quinzenais)
  • h) Há orientação individual aos professores por parte da coordenação pedagógica?

Se a escola é nova, ou o ensino bilíngue na escola é recente, estes cuidados são ainda mais importantes para construir uma base sólida para o trabalho.

2) “A escola trabalha meio 1/2 do período o inglês e 1/2 o português”

Na Educação Infantil não há um currículo fechado a ser ensinado, mas sim um referencial curricular que dá bastante flexibilidade ao trabalho. Por isso a escola tem mais liberdade para organizar o tempo e distribui-lo entre as línguas. A princípio não há problema em dedicar 50% do tempo para cada língua, desde que os conteúdos não sejam duplicados. Um bom projeto de escola integra as duas línguas para construir os conhecimentos necessários às crianças em cada fase, ao invés de sobrecarregá-las com informações e tarefas. Caso contrário acontece o que a leitora/mãe relata abaixo:

3)  “O conteúdo que antes era dado normalmente pela professora no horário integral, agora é dado em somente 1/2 do tempo total da aula. O tempo para as outras atividades ficou reduzido pela metade e a professora tem que correr para que seja possível aplicar todo o conteúdo nesta parte do tempo. O resultado é que eles parecem irritados, cansados, faltam muitas experiências e vivências externas e o parque não é mais tão frequente por conta do tempo”.

A educação bilíngue deveria ampliar os horizontes das crianças e não limitá-lo! Querer “entupir” as crianças de matéria e correr para dar conta do conteúdo (principalmente quando há um sistema apostilado) gera frustração por parte dos professores e desinteresse por parte dos alunos. Criança é criança: tem que brincar, experimentar, se divertir, explorar… se não fizer isso aos 4 anos fará quando? Muito se tem escrito sobre a importância da brincadeira para a inteligência, o equilíbrio emocional e outros aspectos da vida da criança, tanto que vale a pena um post dedicado a isso. Por hoje basta dizer que a brincadeira deve ser o centro da educação infantil, e continuar no ensino fundamental.

4)  “Morro de dó porque ela tem mais apostilas com 4 anos do que eu tinha no meu curso pré-vestibular e pouco brinca com os colegas, pouco eles se divertem. Assim, pouco experimentam e pouco se socializam e muito escrevem.”

Eu também morro de dó. Jamais faria isso a uma criança. Acho tristíssimo elas serem privadas de sua infância tão cedo, e temo pelas consequências para o futuro delas, tão pressionadas e cobradas quando não deveriam, e depois, quando mais velhas, tão soltas e sem orientação quando precisariam de mais cobrança…

5)  Estou pensando colocar minha filha em uma escola que não seja bilíngue, para que ela tenha mais tempo disponível para aprender a se relacionar, para brincar, experimentar antes de aprender outra língua….

É uma pena que você tenha tido uma experiência negativa com uma escola auto-intitulada bilíngue. Infelizmente estas questões podem ocorrer – e infelizmente ocorrem – com qualquer tipo de escola, desde que a visão sobre educação seja mal informada e equivocada. Mas é importante ressaltar que estas questões não tem a ver com a educação bilíngue em si, nem com a aprendizagem de línguas por parte das crianças. Quando a educação bilíngue é feita com competência e sensibilidade, pode ser uma experiência maravilhosa para as crianças, com frutos muito positivos para o desenvolvimento cognitivo, linguístico e cultural dos alunos, como ilustra o caso do Manu aqui.

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  1. Dúvida de mãe: Educação Bilíngue e o processo de afabetização | Educação Bilíngue no Brasil - 19/03/2013

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