Igualdade se aprende desde cedo: combatendo o bullying em contextos multiétnicos

E ainda sobre a presença de crianças imigrantes nas escolas em geral, vale a pena a leitura da entrevista com a antropóloga Simone Toji, disponível no site www.boliviacultural.com.br 

Combate a bullying requer ensinar imigração na aula, diz antropóloga

Por: Sarah Fernandes

 

 

Bolívia Cultural – Mesmo não sendo nativos da Bolívia, casos de bullying a estudantes filhos imigrantes são comuns?

Simone Toji – Por meio do diálogo com alguns membros de organizações vinculadas à comunidade boliviana, é comum ouvirmos relatos das dificuldades que os filhos de imigrantes passam dentro de escolas públicas de São Paulo.  É recorrente histórias de professores que não conseguem integrar tais alunos às suas dinâmicas pedagógicas, devido às diferenças culturais, o que resulta em um baixo desempenho desses alunos. Também é frequentemente relatada a dificuldade de comunicação entre a escola e os pais imigrantes. Eles não conseguem ajudar seus filhos uma vez que tudo é ensinado numa outra língua e num país diferente do de sua origem.  Como a escola pública e seus agentes não conseguem integrar os filhos de imigrantes, muitas vezes ocorrem casos de agressão envolvendo esses alunos, dentro e fora das escolas.

Bolívia Cultural – O que motiva esse tipo de preconceito a imigrantes latinos?

Simone Toji – O primeiro fator é a diferença cultural de pessoas de outra nacionalidade, o que os coloca como “diferentes” e “estrangeiros”. Tal situação pode criar inúmeras incompreensões e situações de abuso, pois as pessoas podem escolhê-los como alvo de suas agressões.

Bolívia Cultural – Os filhos imigrantes sofrem outras formas de agressão e preconceito em outros espaços além da escola? Quais você destacaria?

Simone Toji – Nem sempre as formas de agressão e preconceito se mostram tão claras. Muitas vezes elas são fluidas, como o sentimento de não acolhimento em determinados espaços. É uma sensação de não estar á vontade ou de não ser compreendido.

Bolívia Cultural – Na sua opinião, o fato de ameaças e comportamentos preconceituosos acontecerem dentro da escola é mais grave? Por quê?

Simone Toji – Qualquer comportamento de caráter preconceituoso ou discriminatório em qualquer lugar é grave. No caso das escolas, a gravidade da situação provém da falha de um espaço público ser bem-sucedido em garantir a dignidade da pessoa humana e o exercício pleno de sua cidadania.

Bolívia Cultural – Os estudantes ameaçados não são bolivianos. São brasileiros filhos de imigrantes bolivianos. Nesse cenário, qual a responsabilidade da escola e da Secretaria de Educação frente às recentes denúncias?

Simone Toji – Em minha opinião, não deveria importar se um estudante é brasileiro ou estrangeiro. A escola pública deveria garantir educação de qualidade a qualquer aluno que a procure. Nesse sentido, as escolas públicas em São Paulo estão cumprindo seu papel, pois graças à mobilização da sociedade em torno do Estatuto da Criança e do Adolescente, os imigrantes e seus filhos estão sendo atendidos. O problema é que muitas vezes as escolas públicas não estão preparadas para lidar com a questão da imigração e do multiculturalismo e por isso acontecem casos de abusos a imigrantes e filhos de imigrantes no ambiente escolar.

A responsabilidade das escolas e da Secretaria de Educação é, em primeiro lugar, proteger os estudantes filhos de imigrantes dos abusos. Em seguida, é preciso dar um basta a essas situações de constrangimento e agressão. Por último, é preciso encontrar maneiras de valorizar a presença dos alunos filhos de imigrantes dentro do espaço escolar.

Bolívia Cultural – Que ações a escola pode adotar para evitar ameaças e preconceito a filhos de imigrantes latinos?

Simone Toji – As escolas devem ter a perspectiva de que vivemos em uma realidade globalizada e que por isso o multiculturalismo deve estar presente nas diretrizes pedagógicas das aulas. A convivência globalizada exige que a escola esteja preparada para atender essa realidade. Para isso, é preciso articular ações. Os professores devem ser sensibilizados e treinados para lidar com alunos imigrantes ou filhos de imigrantes. Os alunos não imigrantes devem ter a oportunidade de saber por que a imigração e a emigração acontecem e conhecer um pouco da cultura dos imigrantes.

O ensino de língua estrangeira também deveria englobar o espanhol como alternativa de aprendizado. A escola deve fortalecer os laços com os pais de alunos imigrantes para entender a dinâmica familiar e permitir que eles consigam se envolver na formação educativa de seus próprios filhos.

Bolívia Cultural – E quais as ações que a comunidade boliviana deve por em prática combater a discriminação e o preconceito?

Simone Toji – Considero que a comunidade boliviana já faz muitas ações pra combater as situações de discriminação e preconceito. A comunidade boliviana está se mobilizando cada vez mais, está denunciando esses casos. Acho importante que a comunidade boliviana, aliada a organizações sociais, proponham ações.

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One thought on “Igualdade se aprende desde cedo: combatendo o bullying em contextos multiétnicos

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