Nada de cartilha!


Chega de cartilha! Que coisa mais chata e sem sentido ficar decorando letras, depois sílabas, para chegar nas palavras e só no final do ano ler um texto inteiro, e ainda assim, simplificado! As crianças são muito mais espertas que isso, e estão aí pelo mundo, expostas a um bombardeio de escrita por todos os lados. Pensei até que as cartilhas estavam extintas, ou pelo menos reservadas a algumas situações muito específicas, mas descobri que não: ainda há editoras publicando e vendendo materiais didáticos que sabemos que não funcionam, porque não formam leitores e escritores, como bem sabemos ao olhar a sociedade por aí…

E por que as cartilhas não funcionam? Primeiro porque são chatas. Não têm história. Nada acontece. Não existem fora da escola, e não servem para mais nada a não ser para aprender a ler. Segundo, porque partem do pressuposto de que a criança é bobinha, não dá conta de lidar com a complexidade da escrita, e por isso é preciso simplificar: quebras os textos nas menores unidades possíveis para facilitar sua digestão, como se desse papinha a quem quer comer bife. E terceiro porque privilegiam a memória em detrimento de outras capacidades mentais, como o raciocínio e a criatividade.

Há um vídeo que mostra isso muito bem, Chama-se “Pata Nada”, e mostra uma criança fazendo a lição do P diante da televisão. Contrasta a diversidade de informações da mídia com a simplificação extrema da lição: “Pata nada. Pata. Nada. Pa pe pi po pu. Na ne ni no nu…” e a criança completamente entediada. Sobre esta famosa lição, compartilho o (como sempre, maravilhoso) texto de Mario Sergio Cortella, para nos lembrarmos que nossos alunos são muito mais inteligentes do que se pensava, mas que estão sendo soterrados de informação, nem sempre útil. O que vale a pena, de fato, ensinar, e o que os alunos do presente e do futuro precisam aprender?

A pata nada, mas será que brinca?

Mario Sergio Cortella*

Originalmente disponível no site Aprendiz/Revista Educação

Conhecimento não é acúmulo de informação: deixemos nossas crianças se divertirem com o aprendizado

O mundo está mudando. A rapidez das alterações é tão inédita que, por exemplo, o aluno que entrou este ano na primeira série do ensino fundamental, antes mesmo de botar o pezinho para ser alfabetizado por nós na escola, antes de ter contato conosco, educadores e educadoras, já tinha assistido a 5 mil horas de televisão.

Calcula-se que uma criança assista, em média, três horas de TV por dia (mil horas por ano), a partir dos 2 anos de idade. Portanto, dos 2 aos 7 anos, quando ela entra no ensino fundamental, já assistiu Discovery Channel, National Geographic, filme pornográfico, novela, bombardeio dos prédios de Nova York, desenhos animados, enfim, ela já assistiu muita coisa. E é assim que ela chega na escola, senta no primeiro dia de aula e fica esperando. E nós, quantas vezes, começamos a aula dizendo: “A pata nada.”

Não se confunda conhecimento com informação. Conhecimento é seletivo, informação é cumulativa. A nossa escola, de maneira geral, nos passou fortemente a idéia de que informação era conhecimento. E não é. Por isso uma das tarefas fundamentais da família e da escola é ajudar as crianças e jovens a desenvolverem critérios de seleção, em vez de soterrá-los com informações.

Velocidade, movimento, correria. As crianças também são induzidas a viverem turbinadas. A cada dia se tem menos tempo, levanta-se mais cedo e vai-se deitar mais tarde. E vai-se deitar com débito, achando que deveria estar acordado ainda, fazendo coisas. A ciência nos prometeu, há cem anos, no início do século XX que, quanto mais tecnologia, mais tempo livre e nós estamos em uma explosão tecnológica, quase sem tempo nenhum.

Hoje há crianças de 7 anos que não têm tempo para nada. Elas têm agenda de executivo – já estão neuróticas. Não podem ficar paradas, brincando: a família tem de preencher o tempo dela com tarefas, a escola também tem de dar tarefas. Tem escola, inclusive, que enche a criança de tarefa na sexta-feira, para trazer na segunda-feira. É um crime contra a infância.

Sabe o que faz o aluno? Passa o final de semana preocupado com aquilo, não faz, vai fazer somente no domingo à noite depois que está cansado, quase dormindo em cima do caderno e vai criar raiva em relação ao nosso trabalho. Nós dizemos assim: “Ah, mas é preciso.” É preciso ou será que é questão de planejamento? Nenhum de nós, professor ou professora, gosta de levar trabalho para casa, por que o aluno gostaria? Nós temos de levar trabalho para corrigir, planejamento, mas se pudéssemos, não levaríamos.

Quem confunde os conceitos, sufoca os alunos com informação, achando que eles precisam saber tudo o que está programado e, como nunca dá tempo de cumprir o programa, eles, discentes não sentem prazer com aquilo que fazem e ficam o tempo todo atarefados com tantas lições. E a família até acha que isso é um sinal de escola boa. Existe algum erro de planejamento da escola ou da família quando a criança não tem tempo para brincar. Criança tem de brincar. É assim que também se aprende. A pata brinca, além de nadar.”

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