Compartilhando: texto sobre prevenção de bullying, de Norma Viscardi


No post anterior Norma Viscardi compartilhou conosco um texto de sua autoria sobre prevenção de bullying em escolas na Finlândia.

Segue agora a versão em Português do mesmo texto.

Boa leitura!

O programa anti-bullying das Escolas na Finlândia: um instrumento de prevenção que valoriza o respeito e a dignidade.

Norma Viscardi

 

Education Counselor at Escola Internacional de Alphaville

Member of NASL – Harvard Graduate School of Education

normaviscardi@gmail.com

Abstract

This article describes a successful University of Turku anti-bullying program developed by the institution’s scientific researchers for public schools in Finland. The project which aims at preventing and controlling bullying in schools was first piloted in 200 volunteer schools in 2007 and 2008 and officially adopted by the Finnish National Board of Education in 2009.  Led by Professors Christina Salmivalli and Elisa Poskiparta, the program is intended to the whole school staff, families, students and the local communities as an educational instrument that values respect and dignity. Taking into consideration that the diffusion of good practices is of great value in Education, this case study and field research that took place in Lohja, Finland, in October 2010, has the purpose of becoming an inspiring instrument for specialists to produce and implement effective anti- bullying programs in Brazilian schools.

Key Words: bullying, prevention strategies, systemic program, respect, dignity.

1. INTRODUÇÃO:

O bullying – uma das práticas mais destrutivas entre adultos e crianças – é um problema de comportamento que afeta a vida de milhões de pessoas em todo o mundo e torna-se cada vez mais urgente a necessidade de ferramentas anti-bullying nas escolas, onde os incidentes são mais frequentes.

As evidências científicas dos estudos realizados na Universidade de Turku, na Finlândia e no Trinity College, na Irlanda – dois países que lideram a pesquisa sobre o tema na Europa, além da Inglaterra – mostram que o bullying não tem fronteiras no que diz respeito  à cultura, sexo ou condições sócio-econômicas. Em todos os países, este fenômeno social ameaçador adquire formas semelhantes que, ao longo do tempo, afetam toda a escola, as famílias e a sociedade.

 

1.1 Por que o bullying ocorre?

Como aponta a Doutora Mona O’Moore (2006) , do Centro Anti-Bullying do Trinity College ¹ fatores constitucionais desempenham um papel importante no desenvolvimento de comportamentos agressivos. Contudo, o lar, a família e outros fatores sociais parecem ter uma influência ainda maior sobre as características de personalidade, notadamente a agressividade. Para a pesquisadora, se o comportamento agressivo não for tratado na infância, surge o perigo dele tornar-se um hábito e colocar a criança em risco de praticar atos de violência doméstica ou apresentar comportamento criminal na idade adulta.

Alguns fatores apontados pela pesquisadora irlandesa são:

.Na família: falta de atenção, falta de amor e carinho, punição física, crises violentas dos adultos , disciplina inconsistente, excesso de liberdade, permissividade.

.Na escola: falta de autoridade, supervisão inadequada, regras inconsistentes e inflexíveis, punição excessiva e humilhação, currículo que dificulte o sucesso ou o sentimento de realização.

.Outros fatores sociais: a violência retratada no cinema, na TV, em vídeo e em revistas que pode estimular a tendência agressiva das crianças e dos adolescentes.

No Brasil, as pesquisas realizadas pelo IBGE, em escolas públicas e privadas no ano de 2009, mostraram que 30,8% dos alunos entrevistados já tinham sido vítimas do bullying.Os atos agressivos típicos são mais frequentes nos 5º e  6º anos do Ensino Fundamental e, apesar de nossos educadores estarem conscientes da seriedade da questão, ainda pouco se faz efetivamente para combater o problema. O fato é que a maioria das escolas brasileiras não está preparada para tornar as ocorrências internas de bullying em oportunidades valiosas para moldar a sociedade, valorizando o respeito e a dignidade. Talvez as experiências bem sucedidas de outros países possam nos servir de inspiração para criarmos nossos próprios programas anti-bullying e abordarmos a questão pela ótica de nossos intelectuais e com os recursos tecnológicos de nosso próprio país.

Este artigo, baseado na iniciativa anti-bullying da Universidade de Turku, é uma pesquisa de campo que descreve um programa sistêmico de prevenção, aplicado em uma escola primária finlandesa , na cidade de Lohja, há poucos quilômetros de Helsinki.

A Universidade de Turku, uma instituição internacionalmente reconhecida, de pesquisa científica multidisciplinar, situada na costa sudoeste da Finlândia, desenvolveu um programa de fácil implantação que reduziu pela metade o bullying nas escolas primárias do país em dois anos. Excelentes resultados também foram obtidos por instituições estrangeiras que adotaram o programa em seus países, tanto para prevenir, quanto para controlar as conseqüências desastrosas do bullying; como o isolamento social, frustração, perda da auto-estima, depressão, dificuldades de aprendizagem, problemas mentais, ausências, mudanças de personalidade e até mesmo crime e suicídio.

Christina Salmivalli (2007), doutora em Psicologia e líder do programa da universidade finlandesa – “KiVa Koulu” (Escola Agradável)²- afirma que para abordarmos o problema de maneira apropriada, faz-se necessário capacitar todos os profissionais  da escola, instrumentalizando-os com estratégias de prevenção e  de controle adequadas. O programa consiste de aulas teóricas, simulações (role-play), sessões de vídeo, debates e leitura complementar sobre os mecanismos do bullying e adota materiais como guia do professor, posters, exercícios e jogos de computador, coletes de alerta, guia para os pais. É dirigido às lideranças da escola, supervisores, professores, equipes de apoio, famílias e comunidades locais. A idéia é fazer com que toda a população escolar compreenda de modo abrangente a natureza do fenômeno, seus tipos e fases.

O programa da Universidade de Turku concentra-se em seis tipos de ocorrências:

Física: agressões físicas diretas ou indiretas, com frequência contextualizadas em brincadeiras de “faz de conta”, que normalmente precedem repetidas ações de violência.

Expressões faciais e Gestos: expressões e gestos que carregam mensagens intimidadoras e ameaçadoras.

Isolamento Social: exclui a criança de seu grupo, afetando a auto-estima e auto-imagem.

Ameaças: – brincadeiras de punição, exigindo dinheiro, lanches ou outros objetos, em geral forçando o outro a roubar, tornando-se assim vulnerável à intimidação e constrangimento.

Humilhação: brincadeira habituais, depreciando características físicas e de personalidade, “hobbies”, família, amigos, dificuldades escolares e nível social e cultural de outros colegas.

e-Bullying: utilização de páginas da web, e-mails e mensagens de texto para atacar, ameaçar , intimidar ou até mesmo para espalhar rumores negativos sobre alguém.

A Lohjan Lukio é uma escola primária para crianças de 7 a 12 anos. Sua população estudantil é de cerca de 1.300 alunos, sendo a maioria de origem finlandesa.Contudo, há também alunos estrangeiros da Suécia , países da Europa do Leste e Ásia. De acordo com o Conselho Nacional de Educação da Finlândia, a educação formal básica no país deve ser igual e compulsória para todas as crianças com idade de 7 a 15 anos (www.oph.fi), e um sistema de tutoria está disponível visando uma melhor adaptação e desenvolvimento de todos os alunos, a despeito da idade, língua e nacionalidade. Cada escola tem uma equipe de tutores, responsável pela orientação educacional dos alunos e fornecimento de dados para os professores e pais, através de relatórios sobre o comportamento, necessidades e desenvolvimento dos alunos.

Segundo Erna Huhtala, diretora da  Lohjan Lukio, desde que a instituição tornou-se uma escola “KiVa”( KiVa Koulu), há supervisores usando coletes de alerta nos corredores, na lanchonete, no ginásio de esportes e no playground, onde os atos de bullying ocorrem com maior frequência. Sinais como machucados ou roupas rasgadas, ansiedade, angústia, variação de humor, necessidade de atenção, distração, roubo de objetos ou dinheiro, perda de objetos pessoais ou expressões de conflito interno são imediatamente registrados e discutidos por toda a equipe escolar para que sejam tomadas medidas de controle.

Em caso de uma ocorrência de bullying, tanto o agressor quanto a vítima, assim como seus pais ou outros responsáveis submetem-se a um “tratamento” de, no mínimo, três meses de duração, envolvendo professores, supervisores e psicólogos da instituição em encontros regulares.

Os alunos também recebem informações sobre os sinais e os efeitos do bullying nas aulas de Ética que são compulsórias em todos os anos, durante sessões de vídeo ou através de jogos de computador elaborados para este fim e disponíveis na biblioteca da escola. Conhecendo os efeitos negativos do bullying – stress, falta de concentração, baixo rendimento escolar, insegurança, perda de auto-estima, perda de apetite ou compulsividade com a comida, uso de álcool ou drogas, pesadelos, transpiração, problemas estomacais, ataques de pânico, crise nervosa, entre outros, os alunos   percebem a importância de dizer “NÃO AO BULLYING”.

O “KiVa” caracteriza-se por ações públicas de conscientização e medidas precisas de controle a serem implementadas quando necessário. Foi fundado pelo Ministério da Educação da Finlândia e agora, após atingir, com sucesso 300.000 alunos, ganha grande relevância na área de pesquisa científica em âmbito internacional.

O bullying é um sério problema global que pode tornar-se muito nocivo à sociedade e seus programas de prevenção e controle nas escolas devem se ferramentas sistêmicas e permanentes, causando impacto nos observadores e apelando para o senso comum de responsabilidade social de toda a população escolar e da comunidade.

O projeto finlandês anti-bullying “KiVa Koulu” recebeu o “Prêmio Europeu de Prevenção do Crime” (European Crime Prevention Award –ECPA), da Ministra da Justiça da Suécia  Beatrice Ask, em Estocolmo, em 17 de dezembro de 2009.

Desde a implantação da reforma educacional em 1970, com a proposta de “boa educação para todos”, o padrão das escolas finlandesas vêm crescendo consideravelmente e hoje, conforme os registros do ranking mundial da OECD³, este sistema educacional escandinavo é considerado o melhor do mundo. Eu diria que mais do que o currículo abrangente, o que de fato faz a diferença na educação daquele país é o modo como os finlandeses abordam as questões sociais através da Educação, o amor pelas crianças e adolescentes, o enorme senso de responsabilidade dos professores e por último, porém não menos importante, o respeito por todos os membros da equipe escolar.

2. NOTES:

1. Anti-bullying Center – Trinity College, Dublin . Authors: www.abc.tcd.ie

2. KiVa is the trade mark of the University of Turku anti-bullying program used by the schools that have adopted the  university’s systemic program. In Finnish the word  “Kiva” means well-being and “koulu” means  school, therefore a “Kiva Koulu”  is a “Nice School”.

3. OECD – Organização para a Cooperação Econômica e Desenvolvimento (Organization for Economic Co-Operation and Development).

3.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

1.  O’Moore, M.(2006). Silent Witnesses. Trinity College. C.O Dublin, Ireland

2. Salmivalli, C.(2007). Reactive but not proactive aggression predicts victimization.

Developmental Psychology,43, 869-900.University of Turku,Finland.

4. AGRADECIMENTOS:

 

Meus sinceros agradecimentos pela viabilização da pesquisa em campo e colaboração a Tuula Kairi , professora do currículo de Matemática da escola pública  Lohjan Yhteislyseon Lukio , Erna Huhtala, diretora da Lohjan Lukio e também Johanna Kairi, Professor Matti Kairi, Jussi e Laurinete Kairi pelo caloroso acolhimento naquele país.

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