Ensino-Aprendizagem de Língua e Conteúdos Integrados


O que é o CLIL?
(Originalmente disponível no Goethe Institute – http://www.goethe.de/ges/spa/dos/ifs/pt2747558.htm)
Desde sempre, o interesse por métodos alternativos para o ensino de línguas e consequente compreensão de culturas estrangeiras foi muito grande.
Na Antiguidade, por exemplo, existiram propostas para se aprender uma outra língua e simultaneamente conhecer uma outra cultura directamente no país de origem dessa mesma língua. Na Idade Média muitas pessoas falavam mais do que uma língua, sabendo-se que à excepção do Latim nenhuma outra língua era ensinada de forma sistemática quer nas escolas monásticas, quer nas outras instituições de ensino. À semelhança da língua materna, as línguas estrangeiras eram aprendidas através do contacto com falantes nativos, o que acontecia sobretudo para facilitar as próprias necessidades comerciais e profissionais. De forma semelhante, as governantas das casas da nobreza e de famílias burguesas abastadas dos séculos XVIII e XIX, desempenharam um papel idêntico, contribuindo para uma melhor aprendizagem das línguas estrangeiras dos seus pupilos: a governanta usava o Francês, a sua língua materna, para ensinar as crianças. De uma “forma natural”, as crianças assimilavam esta língua como língua estrangeira ou mesmo como segunda língua, utilizando-a para estudar os conteúdos de História, Geografia ou de outras disciplinas. Já na Antiguidade e na Idade Média, mas mais ainda nos séculos XVIII e XIX, existe este princípio base do ensino bilingue integrado: aprender de forma integrada uma língua estrangeira e um conteúdo disciplinar, utilizando a língua estrangeira como língua de trabalho.

Métodos alternativos para a aprendizagem técnica e especializada

Desde há algum tempo que existem escolas por todo o mundo nas quais todas as suas disciplinas são ensinadas numa das grandes línguas culturais universais, em vez de seguirem a língua nacional. As escolas alemãs no estrangeiro, os liceus franceses, as escolas internas britânicas e já há algum tempo as escolas criadas por instituições europeias para as crianças dos seus funcionários são exemplos modernos de métodos alternativos que divergem da instrução curricular tradicional e que utilizam o princípio do ensino bilingue, ou seja, a integração de uma língua estrangeira com as matérias disciplinares da escola.
É no entanto de salientar que as escolas acima mencionadas são quase exclusivamente escolas de “elite”. Este conceito de escola de “Elite” deve-se não apenas às elevadas capacidades intelectuais dos seus estudantes como também às condições financeiras favoráveis dos seus pais que os podem inscrever nestas escolas. Ao longo do tempo, este processo de selecção levou a que este método atractivo de aprendizagem estivesse somente disponível para uma minoria de jovens. Através da criação dos chamados “ramos bilingues” nas escolas de ensino unificado e secundário, especialmente na Alemanha e na Áustria na segunda metade do século XX, o ensino curricular bilingue tornou-se acessível aos alunos de todas as classes sociais. A política da língua da União Europeia (todo o cidadão da UE deverá estar apto a falar pelo menos duas línguas do espaço europeu além da sua língua materna) resultou num maior apoio e aceitação do ensino curricular bilingue por toda a Europa.

Multiplicidade de conceitos

O número de conceitos que se referem a esta ideia didáctica é surpreendentemente vasto. O conceito alemão Bilingualer Sachfachunterricht (ensino curricular bilingue), de facto algo ambíguo, pode ser também definido como Gebrauch der Fremdsprache als Arbeitssprache (uso da língua estrangeira como língua de trabalho), originando uma perspectiva diferente sobre toda a questão. No contexto linguístico inglês existem definições como Teaching Content through a Foreign Language (ensino de conteúdos através de uma língua estrangeira), Dual Focussed Instruction (instrução focada em dois ou mais intervenientes), Bilingual Content Teaching (ensino de conteúdos bilingues) ou mesmo Content Based Language Teaching (ensino de conteúdos baseados na linguagem). Mesmo estes termos exemplificam como o conceito base da aprendizagem bilingue é interpretado de formas diferentes.
Na última década, nos países de língua inglesa e francesa, impôs-se cada vez mais a seguinte terminologia: Content and Language Integrated Learning (abreviado CLIL) ou Enseignement d’une Matière par l’Integration d’une Language Etrangère (abreviado EMILE). Embora o conceito de Bilingualer Sachfachunterricht (ensino curricular bilingue) continue oficialmente a ser utilizado no espaço linguístico alemão, são visíveis as tentativas de transpor o conceito inglês CLIL para alemão (por exemplo, Integriertes Fremdsprachen- und Sachfachlernen- ensino curricular bilingue integrado). É de saudar que, apesar da diversidade na interpretação do conceito, já se comece a cristalizar um único termo que permita uma abordagem imparcial. No entanto, é também necessária uma definição concreta que inclua a multiplicidade implícita nestes conceitos. Essa definição já foi proposta no início deste século (comp. Marsh & Langé, 2002) e foi apresentada sob forma ligeiramente alterada no Relatório Eurydice da União Europeia (comp. Relatório Eurydice, 2006). Esta diz o seguinte:

“A sigla CLIL é utilizada como termo genérico para descrever todo o tipo de disposições, nas quais uma segunda língua (uma língua estrangeira, regional ou minoritária e/ou outra língua oficial nacional) é utilizada para ensinar determinadas matérias curriculares e não para o ensino da língua em si.”

Uma ferramenta para a promoção das línguas estrangeiras

A definição sublinha que numa escola CLIL não é a matéria curricular no seu todo que é leccionada numa língua estrangeira, mas apenas um conjunto de matérias específicas. O ensino CLIL distingue-se do exemplo das escolas estrangeiras acima referidas e das escolas da União Europeia nas quais toda a matéria curricular é realizada numa outra língua estrangeira. Além disto, o CLIL difere do immersion instruction do Canadá no qual a instrução como um todo é normalmente transmitida numa língua estrangeira sem assegurar o desenvolvimento das competências por parte dos estudantes relativamente à língua estrangeira em questão. Nas chamadas immersion classes não existe ensino de língua estrangeira. Por sua vez, o ensino CLIL é acompanhado por um ensino normal ou parcialmente alargado da língua estrangeira, havendo nele também lugar ao ensino de línguas em si, especialmente quando a matéria disciplinar assim o requer. Isto significa portanto que a instrução CLIL é uma forma verdadeiramente integrada de linguagem e de ensino das matérias disciplinares.
Como exemplifica o Relatório Eurydice e outras pesquisas, as matérias disciplinares, que a definição não especifica com maior exactidão, são sobretudo matérias nas áreas das ciências sociais e humanas, isto é, História, Geografia e Estudos Sociais. Mas as matérias nas áreas das ciências naturais e artes acabam também por ser ensinadas noutra língua.

Não limitar o ensino às línguas estrangeiras tradicionais

No contexto da definição é relevante o facto de as línguas CLIL não estarem limitadas apenas às línguas estrangeiras tradicionais, mas abrangerem também línguas minoritárias, regionais ou outras línguas oficiais do país em questão. Com isto, a definição evidencia que o CLIL não é somente uma ferramenta político-linguística para a promoção de línguas estrangeiras, especialmente a do Inglês, podendo servir também para a promoção de línguas com poucos falantes. O Sórbio na Alemanha ou o Bretão na França, línguas minoritárias definidas geograficamente, inserem-se tanto neste grupo como línguas minoritárias, que são línguas maioritárias em países vizinhos, como o Francês no Vale de Aosta ou o Alemão na Alsácia-Lorena. Línguas minoritárias socialmente definidas podem ser promovidas pelo CLIL; um exemplo disso é o Turco na Alemanha, que é utilizado num número de escolas técnico-profissionais no ensino de disciplinas como a Economia. Outras línguas oficiais nacionais são promovidas na Suíça por exemplo através do ensino CLIL.
O raio de acção do ensino CLIL

O CLIL é adequado tanto para o nível primário e secundário como para o sector terciário. Numa série de países europeus, determinadas áreas de ensino são ensinadas numa língua estrangeira já na escola primária. O CLIL está sobretudo presente no ensino secundário, e também na Alemanha não se limita apenas ao liceu. Muitas das escolas técnico-profissionais utilizam esta ferramenta didáctica para ligarem o ensino da disciplina ao ensino da língua estrangeira. Finalmente é de referir que a duração do ensino CLIL pode variar consideravelmente; alguns programas duram apenas algumas semanas, outros podem atingir um período de seis anos.
Concluindo, resta discutir uma última questão que, atendendo à “neutralidade” pela qual a definição de CLIL sempre se pautou, não se evidencia. Até à data, o conceito didáctico que subjaz ao CLIL era maioritariamente “propriedade” dos professores de línguas estrangeiras. Isto não é de surpreender na medida em que a aquisição altamente competente de uma língua estrangeira no contexto de uma estrutura com esta abordagem tem algo de fascinante que às vezes é um pouco ensombrada pela aquisição dos conteúdos disciplinares na qual está a ser ensinada. Até há muito pouco tempo, a didáctica do ensino curricular quase não se ocupou com a abordagem CLIL, chegando mesmo a rejeitá-la por não lhe reconhecer nenhum valor acrescentado e por não se querer transformar num instrumento subsidiário do ensino da língua estrangeira. Porém, nos últimos anos fez-se notar uma mudança de opinião, especialmente devido a recomendações e directrizes que tornaram evidentes que o ensino curricular bilingue assenta nos princípios da didáctica das disciplinas escolares e que a aquisição dos conteúdos das disciplinas é tão importante como a aprendizagem de uma língua. Além disso, pôde demonstrar-se através de primeiros estudos empíricos (por exemplo Lamsfuß-Schenk, 2002) que as disciplinas curriculares também beneficiam do ensino em língua estrangeira.

Literatura relacionada
Lamsfuß-Schenk, S. (2002): “Geschichte und Sprache –Ist der bilinguale Geschichtsunterricht der Königsweg zum Geschichtsbewusstsein?” In Breidbach, S., Bach, G. & Wolff, D. (eds.): Bilingualer Sachfachunterricht: Didaktik, Lehrer-/Lernerforschung und Bildungspolitik zwischen Theorie und Empirie. Frankfurt: Lang, 191-206.

Marsh, D. (2002): CLIL/EMILE – The European Dimension: Actions, Trends and Foresight Potential. Bruxelles: The European Union.

Dieter Wolff
é Professor emérito no Processamento Aplicacional da Linguagem na Bergische Universität de Wuppertal. De entre as suas últimas grandes publicações na área do ensino curricular bilingue destaca-se a colectânea editada juntamente com David Marsh: Diverse Contexts – Converging Goals: CLIL in Europe, Frankfurt: Peter Lang 2007
Copyright: Goethe-Institut e. V., Online-Redaktion
Novembro 2007

Um comentário

  1. Oi Selma, gostei bastante do seu texto. No meu projeto de Mestrado estou trabalhando com a metodologia CLIL, os resultados até o momento tem sido bastante satisfatórios. Seria interessante saber se alguma escola escola de nosso país trabalha com essa perspectiva de ensino bilíngue.

    Curtir

O que você acha? Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s