Bebês têm aula de inglês antes mesmo de falar


Escolas de idiomas e berçários bilíngues oferecem 1º contato com a língua Pais matriculam seus filhos já aos 4 meses; objetivo é aproveitar a facilidade dessa fase em identificar sons

Paula Giolito/Folhapress

Originalmente disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1206201104.htm

Bebês participam de aula de inglês no curso Dice, no Rio

(Paula Giolito/Folhapress)

ANTÔNIO GOIS DO RIO FABIANA REWALD DE SÃO PAULO Alexandre, Pedro e Lucas encontram-se duas vezes por semana no curso de inglês. Nada demais, não fossem eles bebês entre 10 e 18 meses. Acompanhados dos pais, frequentam o curso Dice, na zona sul do Rio. De olho em pesquisas de neurocientistas que apontam que o melhor momento para aprender uma segunda língua é na infância, cresce o número de berçários e cursos que oferecem aulas de inglês para bebês recém-nascidos. Nos cursos especializados, as aulas costumam ser duas vezes por semana, por até R$ 400 mensais. Já nos berçários, em 30 minutos diários. “Essas crianças não se tornarão bilíngues por causa de duas horas de aula por semana. Mas terão menos dificuldade para raciocinar em inglês, sem que o cérebro precise primeiro fazer a tradução”, explica Eloísa Lima, diretora do Dice. Estudos mostram que, no primeiro ano de vida, a criança tem a capacidade de identificar e discriminar sons com perfeição. Por isso, ao ter contato com a língua estrangeira nessa fase, terá mais facilidade para, no futuro, aprender o idioma sem sotaques. “Essa capacidade vai terminando no final do primeiro ano porque ela tem que selecionar os fonemas da língua que vai falar”, diz Elvira Souza Lima, pesquisadora em desenvolvimento humano. Mônica Pinaud, procuradora da Fazenda, matriculou seu filho Alexandre no Dice após a boa experiência com a filha mais velha, de seis anos, que também começou as aulas de inglês precocemente. “Ela é totalmente fluente em inglês, e está tendo muita facilidade também para aprender alemão”, diz. Para quem se surpreende com a precocidade, o que dizer então quando o contato com o idioma estrangeiro acontece durante a gravidez? “Uma pesquisa recente [da Universidade da Columbia Britânica, no Canadá] aponta que ouvir duas línguas durante a gravidez pode contribuir para o aprendizado de uma segunda língua”, diz Antonieta Megale, membro do Grupo de Estudos sobre Educação Bilíngue da PUC-SP e coordenadora de inglês do Bialik (zona oeste de SP). BRINCADEIRA Para que o contato dos bebês com o inglês dê algum resultado, porém, a neurocientista e colunista da Folha Suzana Herculano-Houzel faz uma ressalva. “Faz todo sentido a exposição a uma segunda língua desde cedo. Mas essa exposição tem que servir para alguma coisa, como brincar, e sobretudo tem que ser prazerosa”, afirma. Por isso, músicas, fantoche e brincadeiras estão sempre presentes na interação com as crianças. É o que acontece nas escolas Equilibrium, em São Bernando do Campo (Grande São Paulo), e Wish Bilingual, na zona leste da capital, onde, a partir dos quatro meses, os bebês interagem com a língua estrangeira com músicas cantadas pelas educadoras. Eloísa, do Dice, lembra também que os bebês não devem ser forçados a frequentar as aulas. “Se a criança dormiu mal ou está com dor, não adianta trazer aqui.” Curso criado há dez anos tenta entrar no Brasil DE SÃO PAULO As aulas de inglês para bebês já existem no exterior há mais tempo. Presente na Europa e na América Latina, a ALL English for Babies tenta trazer ao Brasil o seu sistema de ensino para bebês, criado em 2001. Aqui, o Learning Fun tem aulas para crianças a partir de oito meses em escolas de Florianópolis, Brasília, Rio de Janeiro e Recife. Uma escolinha de São Paulo já demonstrou interesse, mas ainda negocia o contrato. Teresa Catta-Preta, diretora do Learning Fun, afirma que ainda encontra resistência de berçários e pais à novidade. Para ela, o motivo é que eles ainda não conhecem os “benefícios” do método. FRASE “Essa exposição tem que servir para alguma coisa, como brincar, e tem que ser prazerosa” SUZANA HERCULANO-HOUZEL, neurocientista e colunista da Folha Especialistas recomendam cautela Psicopedagoga alerta para o risco de o ensino precoce atrapalhar no futuro a escrita para parte das crianças Pesquisadora critica pressa e defende que é possível aprender uma segunda língua muito bem até os dez anos DE SÃO PAULO Apesar de a neurociência apontar as vantagens do aprendizado de uma segunda língua cada vez mais cedo, especialistas em desenvolvimento humano e educação fazem ressalvas.”Recomendo cautela na transposição dessas descobertas científicas em métodos e programas que simplificam o que é muito complexo”, diz Selma de Assis Moura, professora de didática para a educação bilíngue no Instituto Singularidades. “Precisamos de famílias comprometidas, professores preparados, currículos bem montados e gestores responsáveis para transformar esse potencial em ganhos reais.” A psicopedagoga Maria Irene Maluf, coordenadora do curso de neuropedagogia e psicanálise da PUC-SP, alerta para um problema. “De 10% a 15% das crianças têm algum tipo de dificuldade de aprendizagem. Para elas, o aprendizado da segunda língua vai causar provavelmente uma grande carga para o cérebro, que vai se refletir na hora de escrever.” Maria Irene alerta ainda para os casos em que os pais colocam os filhos para estudar inglês por pura vaidade. Pesquisadora em desenvolvimento humano, Elvira Souza Lima acredita que não é preciso ter tanta pressa. “Do ponto de vista do desenvolvimento da criança, não tem nenhuma justificativa para começar [a aula de inglês] tão cedo, a não ser querer que a criança fale os fonemas sem sotaque, mas isso ela também faz nos primeiros anos de vida.” Segundo ela, até os dez anos, as crianças aprendem muito bem a segunda língua. Elvira lembra ainda que o idioma só será aprendido sem sotaque se o professor -ou o cuidador da criança, no casos dos berçários- for nativo na língua estrangeira. O período de exposição do bebê à segunda língua também é considerado essencial para haver algum resultado. “Uma escola de inglês [com aulas duas vezes por semana] não oferece um contato consistente com a língua. O que propicia o aprendizado é o tempo de exposição”, diz Ana Paula Mariutti, presidente da Organização das Escolas Bilíngues do Estado de São Paulo). (FABIANA REWALD)  FOLHA.com Veja uma aula para bebês: www.folha.com.br/ct928565 ANÁLISE Futuro depende mais de disciplina que de ambiente multilinguístico JOÃO BATISTA ARAUJO E OLIVEIRA ESPECIAL PARA A FOLHA Vamos por partes. Primeiro, existe um período mais favorável ao aprendizado de línguas estrangeiras. O aprendizado natural de uma ou mais línguas traz benefícios e não prejudica o desenvolvimento da linguagem. No primeiro ano de vida, para efeito de ouvir e falar, as crianças aprendem a selecionar sons familiares e descartar os demais. Até o terceiro ano, adquirem a estrutura sintática própria de cada língua. O uso frequente de duas ou mais línguas tem outros efeitos conhecidos, como maior capacidade de julgamento sintático -por exemplo, a criança bilíngue tem mais facilidade de distinguir o que é uma frase gramaticalmente correta, mas semanticamente incorreta, e vice-versa. Há indícios de que usuários de duas línguas têm menos chance de ter Alzheimer. Mas tudo isso se aplica à aprendizagem natural num contexto de uso frequente. Segundo, o cérebro é extremamente plástico. É capaz de aprender línguas com alto nível de proficiência em outras fases de vida e mediante uso de métodos apropriados. É um pouco mais difícil aprender nuanças como a linguagem figurada; são raros os poetas que escrevem numa segunda língua. Mas não há danos irrecuperáveis para quem não aprendeu uma segunda língua no berço. Terceiro, vale a pena? É uma questão de custo benefício: para quem nasce em um ambiente multilinguístico, aprender duas ou mais línguas é uma benção. Aos demais, não é uma maldição. Há várias outras coisas que a família pode fazer para assegurar um futuro promissor aos seus filhos. Há muitos outros circuitos cerebrais que podem ser reforçados com um ambiente estimulador. Um ambiente sem tóxicos, com segurança, estabilidade, carinho, disciplina que leve à autorregulação e, sobretudo, ler e conversar muito com as crianças desde o berço. JOÃO BATISTA ARAUJO E OLIVEIRA , psicólogo, é presidente do Instituto Alfa e Beto

One Comment em “Bebês têm aula de inglês antes mesmo de falar”

  1. Moacyr Moreira Says:

    Boa tarde.

    Gostaria de saber, o endereço no rio de janeiro.

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